Ísis, boneca de pano
Lhe abri um lado
E coloquei
Um coração alinhavado
Amontoado de papel
Retalho
Fiapo e algodão
Ver se ele bate
Imagem fofa por Nanda Teixeira (http://nandateixeira.com)
Sabe? De todas as suas manias, a que eu gosto mais é essa que você tem de escrever tudo tão certinho, tão direitinho, melhor que dicionário.
Eu sei que começou assim: meu pai - o Luiz, era novinho e foi estudar em Rive. Escola agrotécnica. Rive, naquela época, não tinha rádio. Eu acho que não tinha. Porque a vó Magdalena me disse que toda vez que o Luiz voltava pra casa, nos finais de semana, a primeira coisa que fazia era perguntar: - mãe, de quanto ficou o jogo do Flamengo? A vó Magdalena, que não gostava de usar só um sentido pra saber das coisas, precisou aprender a só "ouvir" uma narração de futebol pra agradar ao filho mais velho. Vivia ouvindo jogo de Flamengo pra saber na ponta da língua os fatos e contar pro Luiz logo que ele apontava lá na porteira. Daí pra frente, até hoje, quando chego na casa dela, a primeira coisa que eu escuto é o barulhinho de rádio. Vou perguntar a ela se ainda é o mesmo da época do Flamengo. Sei que até hoje o Luiz é Flamengo, e desde aquela época a vó Magdalena também é. E a maior parte da família seguiu o exemplo. E quando o Flamengo joga, lá em casa é a maior gritaria, ainda mais quando o Felipe vem.
Aquele sorriso gigante, real, sem pudor, ela dava apenas a si mesma: diante do espelho. Olhava e olhava, mexia, sorria, mirava-se sob todos os possíveis ângulos que um espelho pode criar. A mais ninguém se entregava assim. Só à ela, à sua imagem paradoxal, exótica, vulgar. E experimentava sensações, impactos, de batom carmim ou blush exagerado, de cabelos revoltos ou presos num coque transversal. A gargalhada sempre vinha. Era sempre bem vinda. Os olhos apertavam até virarem dois tracinhos de desenho japonês. Ela não sabia se dividir com ninguém. Mas experimentava a felicidade, pois podia multiplicar-se consigo mesma, virando boneca ou dançarina de noites de lua, camponesa ou fada de asa torta, segundo a ótica daquele vidro refletido. Era uma e era mil. E o sorriso era só pra ela; e era pra todas que ela podia ser sem ser.